Sauver Le Darfour dans le monde

Darfur e a barbárie no século XXI

Publico, 10 Mars 2008

África assiste a um papel crescente da China como potência colonial,
contrastando com a sua retórica anticolonialistaDarfur - a terra dos Fur - tem
sido, desde 2003, palco de um conflito que já causou cerca de 200.000
refugiados, pelo menos 200.000 mortos e 2,5 milhões de deslocados internos (o
equivalente a um quarto da população portuguesa!).
Perante a incapacidade das forças da União Africana (UA) em conter a barbárie, o Conselho de Segurança decidiu constituir uma força conjunta da ONU e da UA. No entanto, e apesar de ter sido aprovada a maior operação de peacekeeping da
história, missão que se pensa poder chegar aos 26.000 homens, as razões para
sorrir não são muitas.
Desde logo porque não há peace to keep. O conflito entre os rebeldes e Cartum
continua por resolver e as milícias pró-governamentais mantêm-se activas. E,
convém não esquecer, Darfur é uma região do tamanho da França, onde o mosaico
tribal assume uma grande importância, sendo permeável à influência dos Estados
vizinhos e, em especial, do Chade.
Esta tragédia suscita três reflexões sobre como será o século XXI.
Primeira: as secas cíclicas e a desertificação transformaram os terrenos
férteis, as pastagens e a água em recursos escassos, muito cobiçados. As
disputas sobre estes recursos têm agravado ou mesmo sido fonte de conflitos. Uma situação que tenderá a piorar neste século.
Segunda: há uma incapacidade estrutural da UA de abrir brechas na sacrossanta
soberania dos seus membros, mesmo em casos de catástrofe humanitária. Os cerca
de 7000 membros da sua missão em Darfur tinham um mandato muito limitado,
grandes problemas a nível logístico, falta de homens e de dinheiro. Uma força
que chegou a ser atacada pelas milícias. A UA tornou-se parte do problema e não
da solução, não estando à altura de desafios humanitários desta
dimensão.
Terceira: vislumbra-se um século XXI multipolar onde alguns dos pólos, em
especial a Rússia e a China, não querem discutir direitos humanos - e não só por razões internas. No caso do Sudão, a China tem sido o seu escudo protector no seio do Conselho de Segurança, quer arrastando os seus trabalhos, quer levando à adopção de resoluções menos duras. Um sério aviso a europeus e americanos para a imperiosa necessidade de se manterem unidos.
Aliás, em África assiste-se a um papel crescente da China como potência
colonial, o que contrasta com a sua retórica anticolonialista. É realpolitik
pura e dura pois, para reerguer o Império do Meio, é necessário garantir os
recursos enérgeticos e matérias-primas cruciais para manter o actual crescimento económico. A China não perde tempo a justificar, em termos morais, as suas escolhas de política externa como as democracias - umas melhor que outras - ofazem.
A tudo isto, há que somar uma passividade ou indiferença quase letárgica perante
o sofrimento humano. Uma saturação da dor e miséria em massa num mundo
instantâneo. Hoje em dia, como nos alerta Thérèse Delpech no seu belíssimo livro

O Regresso da Barbárie (Quidnovi Editora, Outubro 2007), o espírito humano "é
muitas vezes reduzido ao papel de espectador, que não espera nada mais da
história - a não ser que perdure. Mas, quando apenas pedimos à história que
perdure, não devemos queixar-nos se ela, por vezes, nos der respostas brutais".
Basta olharmos para Darfur. Investigadora do Instituto de Estudos Políticos -
Universidade Católica Portuguesa